Em Foco

Responsabilidade sócio-ambiental na construção civil: o que isso tem a ver comigo?

Ezequiel Mizrahi (*)

A construção civil, na sua cadeia produtiva, integra uma série de atividades que atuam diretamente sobre o bem-estar social e a capacidade produtiva do país.
Em relação ao bem-estar social, fornece abrigo com impacto direto sobre a qualidade de vida e saúde.
Em relação à capacidade produtiva do país, é responsável por 15% do Produto Interno Bruto (PIB), consome 75% dos recursos naturais extraídos, gera mais da metade da massa total de resíduos sólidos urbanos, contribui de forma significativa para a emissão de gases de efeito estufa, principalmente durante a produção e transporte dos insumos. Também é a atividade que mais gira o capital, que mais emprega mão-de-obra não-especializada em tempos de crescimento e a que mais desemprega em tempos de crise, com alta taxa de informalidade.

Os operários que nela atuam, vivem próximos da linha da pobreza, computa elevado número de acidentes de trabalho fatais, invalidez parcial e permanente, apresenta baixo índice de produtividade e gera desperdícios, tanto na fase construtiva quanto na fase operacional.
Para se ter uma idéia, em termos de consumo de recursos naturais, na produção de 1kg de cimento são consumidos 35l de água, e na de 1kg de tubo plástico, 1,5l de água. É considerado o setor mais agressivo ao meio ambiente.

Estima-se que o índice nacional de desperdício na construção civil chegue a 30%. Uma obra executada com este percentual significa que uma residência com área de 100m² custou o equivalente a 130m², ou ainda, gastou-se o equivalente a quatro casas, mas só foram construídas três. O déficit habitacional brasileiro é estimado em nove milhões de unidades, mas, se for eliminado com este percentual de desperdício, serão jogados no lixo mais de dois milhões de unidades.

O desperdício se origina em todas as etapas do processo de construção: no planejamento do projeto, fabricação de insumos, execução, uso e manutenção. Diferentemente do que a grande maioria acredita, os desperdícios não ocorrem somente no momento da execução, decorrem das várias etapas compostas por diferentes atores e processos.

A vida útil de uma edificação está estimada em mais de cinqüenta anos e sua construção leva, em média, um ano. Então, produz-se um bem que vai durar mais de cinqüenta vezes o tempo que custou para construí-lo. E esta é a finalidade da construção, servir ao homem por um longo tempo.
Como se não bastassem os recursos que foram consumidos na construção, ela irá passar o resto da vida consumindo outros e variados recursos. É óbvio que qualquer intervenção na fase de construção impactará a fase de utilização.

Apesar deste quadro, percebemos movimentos em direção à mudança, já com algumas empresas adotando responsabilidade sócio-ambiental em seus empreendimentos. E nós, pequenos produtores e consumidores, como podemos também praticar responsabilidade sócio-ambiental na execução das nossas obras?
A etapa mais importante é o planejamento do projeto.
Um projeto de uma edificação bem elaborada atenderá aos aspectos econômico, social e ambiental, terá baixo custo na sua construção, utilização e manutenção e conterá especificações claras, considerando as condições de segurança, conforto ambiental e funcional, além de preservar a saúde física e mental dos seus moradores e vizinhos. Este projeto contempla, entre outros, os seguintes itens:

Geração de resíduos é perda (custo) e para atuarmos com efetividade é necessário a elaboração do plano de gerenciamento de resíduos sólidos. Quando implantado, possibilita quantificar as perdas e prever ações para minimizá-las. Para ter sucesso na implantação, é preciso conscientizar e treinar todos os profissionais envolvidos.

A certificação de empreendimentos imobiliários ainda é assunto recente no Brasil. E uma importante ferramenta que pode minimizar os danos causados pela atividade, é o selo LEED (Leadership in Energy and Environmental Design), que faz parte do Green Building Council (US GBC), conselho americano de construção sustentável. Para receber esse selo, o empreendimento deve se enquadrar em critérios que envolvem tipo de terreno, economia de água, eficiência energética, qualidade do ar interno, reciclagem e inovação do projeto. O diferencial está nos recursos empregados. A agência de Cotia do Banco Real/ABN Amro, inaugurada no início do ano de 2007, é o primeiro prédio, na América do Sul, a receber o selo LEED. O diferencial da agência está nos recursos empregados: tijolos reciclados e assoalho e móveis de madeira certificada, cimento com resíduos de altos-fornos siderúrgicos e britas recicladas, painéis divisórios em fibrocimento, sem amianto, tintas e massa corrida sem solventes, tubulação de água pluvial fabricada com a reciclagem de garrafas PET e entulho gerado reaproveitado ou reciclado.

Na próxima vez que for construir ou reformar, utilize os serviços profissionais de um engenheiro para elaborar seu projeto com as bases acima. Com esta atitude conseguiremos combater e diminuir os níveis de desperdício, produzindo edificações com responsabilidade sócio-ambiental, satisfazendo nossas necessidades, sem comprometer a capacidade das futuras gerações satisfazerem as suas próprias necessidades.

¹ Vide Resolução CONAMA nº 307 de 5 de julho de 2002
² Vide NR 4, 7, 9, 18 e 25 do Ministério do Trabalho
(*) Engenheiro civil, especialista em engenharia de sistemas e administração hospitalar, diretor técnico e comercial da FOCO Engenharia & Saúde – www.fococgt.com.br
Fonte:
Arcoweb – www.arcoweb.com.br
Banco Real/ABN Amro – www.bancoreal.com.br
CONAMA – www.mma.gov.br/port/conama
Fundação Perseu Abramo – www.fpa.org.br
Guia de Responsabilidade Social para o consumidor, 2004 – www.idec.org.br
Instituto Ethos – www.ethos.org.br
Ministério do Trabalho e Emprego – www.mte.gov.br
PINI – www.pini.com.br
Revista Sustentabilidade – www.revistasustentabilidade.com.br
Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo – www.sindusconsp.com.br